23 de nov. de 2008

Um começo. (?)

E lá estávamos nós. Eu, com meus jeans desarrumados e alguma camisa pólo que minha mãe me dera há muito tempo atrás, quando ela fora aos Estados Unidos, visitar minha tia doente, hoje morta. Bruna, com seu cabelo escuro preso na costumeira trança, me fazia olhar para sua face sem nenhuma barreira. Olhar para o seu rosto sempre me trouxe calma. Seus olhos comuns, castanhos escuros, sempre me fascinaram. Nunca entendi o porquê, pois, no lugar onde morávamos, Fortaleza, capital do Ceará, olhos claros sempre foram bem mais valorizados. Mas os olhos da garota que se destacava dentre as outras, nesse momento estavam ansiosos. E seu nariz era a perfeição. A primeira coisa que sempre olhei nas garotas é o nariz. Quer dizer, olhava. Depois de conhecer Bruna, tudo mudou. Sua boca era carnuda e naturalmente avermelhada, ao contrário da minha que era fina.

Estávamos sentados na calçada de sua casa de praia. Todos os nossos amigos já estavam lá dentro, provavelmente dormindo ou assistindo algum filme, como pretexto de ficarem acordados. Não tínhamos ido para casa com os outros, pois ficamos na praia, caminhando de pés descalços e aproveitando o momento íntimo. Ela se acomodara em mim e cochilara. Momentos antes de dormir, ela sussurrara em meu ouvido: “Kauê, você me acalma. Seu cheiro me acalma. Sua voz me tranqüiliza. Obrigada por tudo.” Eu a acalmava. Isso fez meu coração inflar, de um modo que eu nunca achei ser possível antes. No entanto, isso não dizia nada de mais. Era só, mais uma vez, meu coração dando brecha e aumentando algumas coisas que não eram reais, como o amor de Bruna por mim. Eu sabia que ela só gostava de mim como um amigo, um irmão.

Mas agora, ela acordara e chupara uma bala de menta. Minha preferida. Ela não sabia disso. Eram somente alguns detalhes que ela não sabia sobre mim. Bobagens que não tinha sentido serem mencionadas. Estava com um hálito artificialmente refrescante. Não conversávamos mais, só nos olhávamos. Nos olhamos por um longo tempo, até que percebi que seu pescoço se esticava o máximo que conseguia, e sua mão macia apertava a minha. Foi estranho como percebi isso rapidamente, como um baque, todos esses detalhes me chamaram a atenção.

- Kauê, você está pálido. Respire! – ela disse com uma voz preocupada e então, percebi que passara o tempo todo que estávamos nos olhando sem respirar. No momento que soltei minha respiração e respirava normalmente, Bruna me fez o favor de alterá-la novamente. Eu senti o gosto de sua pastilha de menta, que disfarçava o gosto que sempre tive vontade de provar.

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Obrigada pela inspiração, amigo. Isso era o que eu queria que voce fizesse comigo. Mas tá tranquilo. Ou não? (L)

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