2 de dez. de 2008

Um começo. (?) (2)

Ainda era tarde – ou deveria dizer cedo? – e percebi um movimento no corredor. Podia ser só uma das garotas indo beber água na cozinha ou algo do tipo. Então, quando estava quase esquecendo da fase ruim que meu time estava passando, eu ouvi algo tilintar no chão. Me levantei para ver o que havia acontecido. Passei pelos corpos adormecidos de meus amigos e fui para o corredor.

Quando olhei para o final do corredor, senti o alívio. Não era nenhum ladrão ou algo do tipo. Era só Gabi. Gabi era uma garota alta, da pele morena e do cabelo bastante cacheado. Gostava bastante dela, mesmo com seu temperamento forte e sua impaciência. Ela fora a primeira pessoa que falou comigo quando entrei no colégio. Passaram-se seis anos desde que a vi pela primeira vez. Estávamos cursando, finalmente, o terceiro ano do ensino médio e ela me acompanhara todo esse tempo. Eu amava Gabi, como uma irmã. Ela me conhecia bem e eu a conhecia melhor ainda. Nós realmente agíamos como irmão e irmã: zoando um com o outro, pregando pessoas, brigando por besteiras.

No entanto, agora estava mais distante de Gabi. Ela havia começado a namorar um de nossos amigos e bom, digamos que ele tinha um certo ciúme de como eu agia com Gabi. Sempre estávamos juntos, sempre abraçados, sempre grudados um no outro.

No momento em que vi aquele vulto grande e escuro com uma camisola branca, reconheci-a. Não só por ela ser a maior garota que estava conosco, mas por causa do seu indiscutível modo desajeitado. Sempre estava derrubando algo. Dessa vez, havia sido um garfo que ela havia derrubado.

Ao me reconhecer, ela pôs o dedo indicador na frente da boca, como um gesto que me pedia silêncio. Ela colocou o copo de vidro com água que estava segurando em cima da bancada e veio andando rapidamente até o corredor. Quando chegou a um passo de mim, olhou para meus pés e sussurrou:

- Eu sinto muito. Eu não queria que fosse assim, mas eu o amo, Kauê. Eu sinto muito a sua falta. – e dito isso, ela me abraçou fortemente. Eu a abracei de volta, sentindo falta da força exagerada que ela sempre colocava enquanto me segurava. Estávamos juntos o bastante para eu simplesmente dizer, no ritmo da velha música do Blink, “I miss you, miss you.” Senti as lágrimas de minha irmã de consideração molharem minha camiseta. Eu a abracei mais forte. Eu realmente sentia falta daquela amizade que estávamos cultivando desde da quinta série.

Quando ela se acalmou, Gabi simplesmente voltou para a cozinha, pegou o copo de vidro que deixou sobre a bancada, bebeu a água, que no momento já devia estar quente, colocou o copo dentro da pia, e foi para o quarto em que as meninas estavam dormindo. Fez todo esse trajeto olhando para o chão. Ela estava com vergonha. Vergonha de quê? De ter me abraçado ou de ter admitido que não era forte o suficiente para agüentar a dor da separação de um amigo? Eu não sabia exatamente. Me senti triste também.

Quando ela fechou a porta do quarto, eu finalmente me toquei que estava perto do amanhecer. Fui para a janela da varanda e observei o céu mudar de cor várias vezes e vi o sol nascer.

-

Você me tem. Não tentei esconder isso nem nunca vou tentar. (L)

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